Sunday, May 27, 2007
[confissão]
~~~
Freddy:
Speak and the world is full of singing,
And I'm winging Higher than the birds.
Touch and my heart begins to crumble,
The heaven's tumble, Darling, and I'm...
Eliza:
Words! Words! Words! I'm so sick of words!
I get words all day through;
First from him, now from you! Is that all you blighters can do?
Don't talk of stars Burning above; If you're in love,
Show me! Tell me no dreams
Filled with desire. If you're on fire,
Show me! Here we are together in the middle of the night!
Don't talk of spring! Just hold me tight!
Anyone who's ever been in love'll tell you that
This is no time for a chat! Haven't your lips
Longed for my touch? Don't say how much,
Show me! Show me! Don't talk of love lasting through time.
Make me no undying vow. Show me now!
Sing me no song! Read me no rhyme!
Don't waste my time, Show me!
Don't talk of June, Don't talk of fall!
Don't talk at all! Show me!
Never do I ever want to hear another word.
There isn't one I haven't heard.
Here we are together in what ought to be a dream;
Say one more word and I'll scream!
Haven't your arms Hungered for mine?
Please don't "expl'ine," Show me! Show me!
Don't wait until wrinkles and lines
Pop out all over my brow,
Show me now!
~~~
* do filme 'My Fair Lady'
Wednesday, May 09, 2007
[dvds]
É que talvez as pessoas sejam um pouco como Dvds.
Existem aqueles dvds que só basta que os vejamos uma vez, e sabemos que vamos querer vê-los de novo e de novo para o resto de nossas vidas.
Existem aqueles dvds que mal começamos a ver e já sabemos que o melhor a fazer é desligar logo o aparelho e devolver aquele dvd o mais rápido possível.
Existem dvds que nos encantam durante um período e nos são muito especiais durante esse tempo, mas aí percebemos que eles não fazem mais que com nos sintamos bem, que eles nos fazem chorar.
Existem dvds que logo depois de termos encontrado, não queremos nunca mais sequer ouvir falar deles.
Existem dvds que nos marcam profundamente, mas depois desaparecem e não conseguimos mais encontra-los, por mais que os procuremos.
Existem dvds que vemos algumas vezes e depois não temos mais coragem de ver – por vários e diferentes motivos.
Existem dvds pelos quais nos apaixonamos e então achamos que nenhum outro será tão belo [o tempo nos mostrará, no entanto, que serão vários os belos e que eles nos marcarão de formas diferentes]
Existem dvds que são simplesmente feios, que nos fazem se sentir mal, que nos trazem para baixo sempre que cruzam nosso caminho.
Existem dvds que são como sonhos: absolutamente irreais, mas absolutamente lindos.
Existem dvds que não fazem bem ou mal, e às vezes sequer conseguimos lembrar deles, ou às vezes eles são exatamente o que o momento pede.
Existem aqueles dvds que sempre nos fazem se sentir bem, que sempre levantam nosso ânimo, que sempre nos trazem um sorriso à boca e paz ao espírito.
Existem aqueles dvds que nos causam medo, que fazem com que tenhamos pesadelos, que retratam o que existe de feio no mundo.
Existem aqueles dvds que nos fazem acordar, que nos falam as verdades que precisamos ouvir, que nos arrebatam do mundo das ilusões e fincam nossos pés no chão.
Existem dvds que são como crianças: alegres e inocentes, puros e leves, graciosos e verdadeiros.
Existem dvds que nos mostram fragilidade, que nos fazem ver as limitações do homem, que nos fazem perceber nosso tempo finito, que nos fazem perceber o valor que deve ser dado a cada dia.
Existem dvds que acreditam no fim feliz.
Existem dvds que são repletos de tristezas.
Existem dvds que são cheios de perdão; outros que são cheio de inveja e maldade.
Existem dvds que são exemplos de vida; outros que são exemplos do que não seguir.
Existem dvds que existem simplesmente por existir e outros cuja existência não nos imaginamos sem.
Existem dvds que sobrevivem ao tempo: sempre mostrando continuamente sua importância e beleza. Existem dvds que serão sempre uma linda lembrança. E outros que ficaram esquecidos no tempo a que pertenceram.
Existem dvds que nos chegam como um presente e fazem nossa vida melhor e mais bonita.
Existem dvds que nos fazem olhar alegres para a nossa prateleira: porque só tê-los ali já nos faz nos sentirmos mais felizes e certos de ter sempre um sorriso à mão.
~ Para os ‘dvds’ da minha vida.
Wednesday, May 02, 2007
[definições]
São esses anseios que ecoam de dentro de nós. Vozes que nos gritam no ouvido, que nos sussurram sobre medos, sobre desejos, sobre incertezas. Passado e presente misturados numa corrente contínua e fluida. Olhares que só nós vemos, vozes que só nós escutamos, desfechos que escolhemos sem escolher realmente.
E falamos falando o que não conseguimos falar. E tudo parece tão imenso e tão enrolado e tão cansativo e tão, tão maior que nós.
E as horas nos chegam, sem discrição alguma, esbarroam sua entrada em nosso tempo, rodam tontas no relógio, assoviam salientes do alto das manhãs, riem nocivamente no fechar das noites de derrota. No palco, nós, vencidos pelas superações que não conseguimos alcançar.
Esses pobres homens, também. O que o tempo quer de nós? Quererá nos moldar em seres superiores? Desejará cochichar-nos sabedorias? Anseia talvez nos contar segredos de felicidade e paz?
Ora, ora.
Será esse o plano do tempo?
Desejará ser a água da sede*, o preencher do vazio, o sentido da confusão?
Terá talvez a pretensão de se fazer professor e mestre? De se vestir de luz? Quererá o tempo nos mostrar os por quês? Pensa talvez o tempo que é capaz de nos transformar?
Mas, ora, ora.
Quem o tempo pensa que é?
Esperança, por acaso?
* essa frase não é minha: foi-me dita hoje pela manhã por Flaubênia, colega do mestrado, em um contexto diferente.
Sunday, April 22, 2007
[um texto bonito]
Na verdade a beleza é um sorriso.
Você vê o que lhe é belo e pronto: você simplesmente sorri.
Mas o que é um texto bonito?
As imagens que vamos formando, imaginando, à medida que lemos o texto?
O sentimento que o texto desperta em nós?
Acho que todas as anteriores. A depender do momento, do texto ou do espírito.
O que sei é que precisamos de um texto bonito. Precisamos alimentar o que há de belo. Precisamos estimular o que sentimos que é bom, o que nos faz sonhar, o que nos faz ver tudo um pouco mais colorido.
Um texto bonito nos traz leveza, nos faz terminar a leitura com um sussurrante “é verdade...!”.
Quase como uma confissão a si mesmo. Quase como a mensagem de anjo que nos foi enviada para que ainda acreditássemos em algo.
E não somos nós que encontramos um texto bonito.
É ele que nos acha.
Chega às nossas mãos ou vem à nossa mente no momento da precisão.
E a verdade é que necessitamos do texto bonito.
Que traga à tona boas lembranças, que abrace nossos sonhos, que endosse nossas esperanças.
No entanto, creio eu, não é o autor quem faz o texto bonito. Ou se o faz, faz para si – porque é, também, leitor.
E é o leitor quem faz o texto bonito. É o leitor quem vê o que de belo há ali. É o leitor quem confessa para si: “é exatamente isso que eu sinto. Que eu precisava ouvir. Perfeito isso!”.
Perfeito sim. Porque na verdade só nós somos capazes de reconhecer as peças que nos faltam.
E um texto bonito é isso. Um pedacinho seu que estava perdido por aí e que você, de repente, achou.
- Para o meu amigo Bal.
Tuesday, April 03, 2007
[um post triste]
É que no mundo tudo precisa ser anunciado. Tudo há que ter uma razão de ser, uma explicação, um por quê. Tudo há que ser aparente.
Lembro-me da frase de Exupéry: “o essencial é invisível aos olhos”.
Mas confesso que acho a frase extremista demais: há tanto que é essencial e que é, no entanto, tão visível.
Mas o que dizer da dor? Parece-me que temos que mostrar o gesso do braço; a ferida aberta na perna; os pontos que costuram o pé.
[para que serve, senão, o atestado do médico?]
A dor, por si só, essa não causa sensibilidade.
É a velha história da pedra no sapato do outro...
E é também como a dor de um coração partido. Parece-me que a dor de uma perda, sem ser por morte sofrida ou súbita, não causa lá tanta compaixão...
Quem há de mensurar a dor do outro?
A pedra que lateja no sapato que não sai do pé?
Este é um post triste. Porque a tristeza é parte de tudo. Emenda as peças do quebra-cabeça; agita os pensamentos; torna consciente o que incomoda.
A tristeza faz a dor aparente.
A tristeza comunica.
Confesso que posso dizer que tenho alguma – ainda que pouca – autoridade
[e aqui falo de um dedo, imaginem]
A dor que sinto hoje, perto da dor que já senti um dia, essa dor é quase nada. É um restinho de terra, uma sombra do que já existiu.
Para ser ridícula: é um punhado de grãos na imensidão da areia da praia.
E há que vir o mar já já e levar esses grãos embora.
Porque na verdade a dor faz com que percebamos o que sequer sabíamos que existia.
A dor anuncia a falta da não-dor.
É uma saudade.
No fundo é só isso.
Saudade do tempo em que não doía.
Friday, March 30, 2007
[são os teus olhos que vêem o mundo]
O que são nossas certezas, não é? O que você acreditou ontem? Em que achou estar certo? Quais foram os pensamentos que eram teus e que você viu se esvaírem como se eles nunca tivessem envolvido nenhuma intensidade...
Somos todos formados da mesma matéria falha. Uma matéria que só pode ter a certeza de que se modificará ainda milhares de vezes até que por fim se transforme pela última vez.
Recentemente, veio a mim a seguinte frase: “envelhecemos como vivemos”.
Uma vez me foi dito que não podemos fugir de quem somos, que transbordamos por nossos poros. E essa é sim uma grande verdade. O único complemento que faltou a essa afirmação é que nossos poros estão sempre a mudar.
O tempo os transforma, os fazem mais visíveis, mais coerentes com o que aceitar ou não da vida, mais certos do suor que devem ou não expelir.
Mas sim, envelhecemos como vivemos. Porque o viver é na verdade uma atitude perante a vida. Somos nossas crenças por sobre a vida, por sobre a experiência do viver.
No entanto é preciso ressaltar que essa não é uma verdade estática. Ou, para melhor expressar-me, não é uma verdade petrificada; mas sim uma verdade em movimento.
Porque caros, o que falta nessa grande verdade que clama que envelhecemos como vivemos é que somos vários ao viver: e temos na realidade tantas vezes quantas forem possíveis, até que se chegue à nós nossa finitude, para que percebamos o encantamento de viver, para que possamos crer nessa seqüência de acontecimentos e experiências que perfazem a própria vida.
Esparramo esses pensamentos por um motivo apenas: porque o emprego que eu quero da vida é o de caçadora de belezas.
Dessas belezas que faz você aos 89 anos ver a vida com toda a plenitude da juventude. Dessas belezas verdadeiramente belas, que sobrevivem a todas as tristezas e percalços, decepções e auto-vitimização.
Quero colocar meu par de óculos e enxergar por essas lentes magníficas, que ‘envelhecem como viveram’ e que viveram a perceber a beleza de apreender pequenas coisas, de saber quando dar a mão, de ver o lado mais bonito das pessoas e dos espaços ao seu redor.
Na realidade, são nossos olhos que vêem o mundo.
E cada par de olhos tem o mundo que enxerga.
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Desejo
-Victor Hugo-
"Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve
E
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga "Isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar".
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Me é impressionante como algo tão lindo como essa poesia, ainda não seja capaz de englobar tudo o que é possível à vida.
São muitos os desejos. Uma vida apenas.
E a forma como essas duas variantes se entrelaçam na realidade só depende de nós.
Afinal, são nossos olhos que vêem o mundo.
Monday, March 19, 2007
[dia de varanda]
[discrição]
olhei-o
sem sabê-lo até eu
olhei-o
a indagar o passado
a relatar o presente
a apostar o futuro
olhei-o
acompanhando seus passos
o arrastar de sua existência
a coerência de seu julgamento
olhei-o
nem alegre
nem triste
olhei-o apenas
certa de que ele sempre existirá.
19/03/2007
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[vivas]
porque o romanesco contagia
entra nos sonhos sem permissão
briga com o dia a dia
frustra-se com o real
vivas pelo que se viva
que os sorrisos deixam-se sempre a depender de algo.
19/03/2007
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[volta]
conta-se
um, dois, três...
arrasta-se
impõe-se
pinta o pelos
risca a pele
fere
cura
traz lembranças do que não mais é
[mas que nunca deixará de ser]
é guardador de tanto
é depósito da existência
até que essa deixe de existir
e ainda assim guarda o que foi permitido registrar
pois que se registre.
pois certas coisas merecem ser eternas.
19/03/2007
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[não fui eu]
não fui eu quem disse
o que deveria ser dito
não fui eu quem consertou
o que deveria ser consertado
não fui eu quem escreveu
o que deveria ser escrito
não fui eu quem percebeu
o que deveria ter sido percebido
não fui quem acreditou
no que deveria ter sido crido
mas fui eu quem sonhou
exigente e geniosa
ingênua e irresponsável
ser resgatada do fogo que queimava.
19/03/2007
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[janela]
que às vezes
basta um pequeno espaço
um buraco quadrado
a atravessar a parede
e mostrar o mundo
que existe além.
19/03/2007
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verdade do dia:

Friday, January 26, 2007
Thursday, January 25, 2007
[re-visita]
Ao título deve-se uma explicação [aliás, pensando bem, acho que essa é uma verdade estável]: parece-me que já vivi e senti tudo o que hoje vivo e sinto. Os sentimentos vêm, se misturam numa gororoba feia, marrom, gosmenta e tudo o que meu cérebro faz é anunciar solene e frio como uma lâmina de metal: você já trilhou esse caminho, já praticou os mesmo erros, e até as mesmas conclusões serão ditas a seu respeito.
E isso dói.
Dentro de mim e em um idioma não perceptível aos outros, mas dói.
E há tanto o que eu quero falar, mas acho que só nesse ponto sou jornalista: sou, na verdade, uma auto-censurada.
No entanto, eu sou grande entusiasta da vida: se tudo isso já me veio antes, eu também sei que sobrevivo.
Não saio inteira [nunca saio, até porque não saio a mesma], mas sobrevivo.
Uma vez [para falar a verdade, a ouvi várias vezes, em vários momentos, dita por várias pessoas] ouvi a frase: ninguém é insubstituível.
Discordo plena, expressa e fortemente dessa frase.
Aliás, acredito e sinto exatamente o oposto: todos [e cada um] são insubstituíveis.
E sofro terrivelmente com cada perda que a vida me traz.
E aqui não falo de uma perda específica.
Ou não falo também de uma verdade universal que caiba a todos.
Generalizo uma temática.
Lembro-me de uma anedota para lá de verdadeira que ouvi ou li em algum lugar:
Meu filho, se lhe chamarem de cavalo uma vez, dê-lhe um soco na cara.
Se lhe chamarem de cavalo uma segunda vez, xingue-o de algum outro nome.
Se lhe chamarem de cavalo pela terceira vez, comece a relinchar.
Simplesmente há vezes em que o mal, o defeito está em nós mesmos.
E são precisos fatos repetidos e constantes para que vejamos isso.
Eu decidi que não quero só entender.
Aliás, desisto de entender.
E passei muito tempo da minha vida com um desejo apenas [porque os outros desejos eu tinha -- e tenho -- a certeza dentro de mim que com minha luta eu mesma conseguiria]:
ser entendida.
Mas, como veio na frase que uma amiga querida mandou:
"Nasci careca, pelado e sem dente ... o que vier é lucro"
E eu até que consigo tirar lucro da vida.
Saturday, January 06, 2007
[sobre a arte de recomeçar]
Este não se pretende ser um texto de auto-ajuda. Mas pode ser que acabe por se tornar um quando eu o terminar de escrever. Porque, queridos, no fim, somos nós quem nos ajudamos mesmo. Ajuda alguma que a vida nos dá, pode ser recebida sem que seja por nós permitida. Assim, toda ajuda termina por ser uma auto-ajuda.
E nós, nós somos artistas mestres. Somos criadores de obras-primas atemporais. Somos fazedores do tempo.
A cada novo passo, a cada nova escolha, a cada perda [pois são elas as maiores responsáveis pelas transformações que acontecem em nós], a cada aprendizado, a cada sonho realizado, nós, artistas, inventamos a arte de nos criar novamente.
Não falo aqui da metamorfose do fantástico Raul. Não acho que somos seres metamórficos. Embora sejamos ambulantes: peregrinos da estrada que aceitamos trilhar.
A metamorfose é instintiva, não é sentida ou pensada. A metamorfose se opera em nós, e não nós nela. É seguir pulando com cada nova multidão que aparecer.
Já o recomeço, o recomeço é uma atitude. É sentido, muitas vezes nos custa, é sofrido, pensado, refletido, requer garra, escolha, perseverança.
Somos nós que operamos, que entramos em ação, na hora em que decidimos recomeçar.
E, sim, somos vários ao longo da vida. Somos o vento a carregar as várias e diferentes partículas dos locais por onde passa, a levar em si um pouco de tudo o que tocou.
Somos o vento que ora é dança, ora é briga, ora é desastre, ora é brisa, ora é frio, ora é leveza, ora é horror. Somos o vento que muda de acordo com o tempo que vive.
E, quase que sem escolha, se nossa escolha é interagir com a vida, seguimos recomeçando.
E não recomeçamos porque o presente é ruim. Recomeçamos porque sentimos a necessidade de fazê-lo.
Podemos passar anos a fio na mesma situação que nos comprime, magoa, castra, entristece, cala, sufoca e não nos permitirmos recomeçar. Porque somos seres bonitos: às vezes achamos que só merecemos aquilo, que só aquela realidade nos é permitida. Ou porque estamos assustados: até que ponto é bom o desconhecido?
Recomeçar significa abandonar quem se era e vestir-se de um novo eu.
Significa lutar por novos sonhos [é impossível ao que não tem sonhos recomeçar].
Mas aos que conseguem ou se permitem interagir com a vida, chega um dia em que falamos para dentro: basta.
E ao sentir isso, já recomeçamos.
E ao que se permite recomeçar, vai um aviso: sempre serão necessários novos recomeços.
Não recomeçamos porque perdemos, recomeçamos porque crescemos. Porque a linha de chegada está agora em outro lugar.
Recomeçamos porque somos artistas: e artistas têm sempre que criar novas obras.
Recomeçamos porque, para estar ao lado de quem amamos, precisamos sempre nos adaptar uns aos outros: afinal, todos recomeçam de novo e de novo e ninguém recomeça sem estar de mãos dadas com os sonhos que lhe enfeitam o travesseiro.
Recomeçar é colocar a caneta na mão e iniciar a escrever uma nova história.
Recomeçar é perceber que a única coisa que a última história ainda precisa, é do ponto final.
imagem retirada daqui
e a do post anterior, cujo crédito eu esqueci de colocar, é de autoria do meu querido mestre, o cartunista argentino Quino, criador da Mafalda
Thursday, January 04, 2007
Saturday, December 30, 2006
Escrever para mim é viajar por dentro. É entrar na montanha russa dos vasos que percorrem meu corpo. É tirar a carapaça grossa, é fazer-se frágil e tímida e ser a mais pequena das criaturas.
Escrever para mim, é ser quem não vêem que eu sou, é virar personagem de mim mesma, é tentar amontoar, amassar, encaixar tudo o que não pode ser amontoado, amassado, encaixado. E essas palavras sempre falham em dizer tudo o que precisa ser dito.
São um recorte da realidade apenas. Uma edição. Dentre tantas possíveis.
E eu, que estou sempre fazendo turismo em mim, aprendo e desaprendo com essas palavras.
E têm vezes que elas querem me agarrar pelo braço e sair de joelhos pedindo perdão a todos os que queria ter perto; têm vezes que elas se vestem de raiva, e querem usar todos os palavrões que só aos gritos poderiam expelir um pouco da mágoa e frustração e dor; têm vezes que elas, fracas, são tomadas por uma auto-piedade, por um não-pertencer, por se achar eterna estranha nesta terra azul.
Têm dias que elas acreditam no amor. Acreditam que é possível que duas pessoas se encontrem e passem o resto de suas vidas se re-conquistando, vencendo os defeitos e os mal-entendidos e as fraquezas de cada um. Têm dias que elas têm a certeza de que o amor não é para aqueles que gostam de escrever sobre ele. Que quem o observa, não o vive. E quem o vive não precisa se deter a observá-lo.
Essas palavras que criam teorias que ninguém escuta. Que física alguma se interessaria. Essas palavras que se sentem a mais só das criaturas. Que vão dormir agarradas ao travesseiro e olham para as estrelas sonhando que talvez um dia possa existir alguma vida que lhes dêem um senso de completude. Essas palavras tolas. Que acreditam tão facilmente em tudo. Onde qualquer sorriso é permissão de entrada.
Essas palavras que já sabem quais serão as últimas palavras que serão escolhidas: sempre acreditei na vida.
Porque as palavras e a vida estão sempre em um ringue, com luvas vermelhas nas mãos e nem sempre têm protetores nos lábios e na cabeça, e nem sempre os golpes são justos ou corretos ou éticos. Mas quando chega a hora de contar até dez, entre a vida e nossas palavras, são nossas palavras que devem ganhar e se levantar primeiro. E não tenham dúvida: a vida esperará que nos levantemos e só não será por nós se nós mesmos não o formos.
E disso as palavras sabem, e isso as palavras cantam, e por isso elas têm em si o mais belo nome: amanhã.
E o amanhã pode ser o próximo minuto, pode ser o próximo ano, pode ser o futuro, pode ser o que acabou de chegar: o amanhã é a certeza de que o hoje vale e de que muitos sorrisos ainda enfeitarão nossos lábios. O amanhã é a essência do ser homem: é acreditar que as pequenas coisas fazem essa jornada valer a pena. O amanhã é a caixinha aonde guardamos os sonhos e planos que só nele cabem.
~~~~~~~~~~~~~
que o amanhã que agora chamamos de 2007 venha enfeitado de muitos sorrisos e surpresas boas.
Monday, December 18, 2006
Sunday, December 17, 2006
[a vejo em um samba]
que deixa alegre qualquer tristeza ;]
O que será de nós
Amanheceu
E agora
O que será de nós
No novo dia
Já dois estranhos
Sem um por quê
Já dois passados
Sem um querer
Amanheceu
E agora
O que será de nós
No novo dia
Já não se fazia mais
Essa quantia
Essa dor tardia
De quem não se quer mais
Amanheceu
E agora
O que será de nós
No novo dia
As mãos não se dão mais
Os sorrisos não querem aparecer
E até a raiva já não quer acontecer
É só o cansaço de dois cansados
Amanheceu
E agora
O que será de nós
No novo dia
O sol já decidiu entrar
Mas não veio iluminar
Os olhos molhados
Cansados de tentar
Amanheceu
E agora
O que será de nós
No novo dia
Feita esta manhã
Se foi a noite que escondia
Dentro de si
O fim
O fim
O fim.
17/12/2006
Wednesday, December 13, 2006
Friday, December 01, 2006
Thursday, November 30, 2006
[hoje é dia de poesia]
o outro travesseiro
é dentro do silêncio
é dentro dele
que escuto sua voz
é sozinha
que sinto o seu toque
é quando estou só
que você está comigo
é em sonho
que o real existe
é em sonho
que estou acordada
é no não-tempo
(que o relógio não marca)
é nele
que tudo se faz eterno
e te tenho para sempre
ao meu lado.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~
paisagem
não falarei de flores
não trarei o lírico
para te falar
não desenharei em vermelho
ou adoçarei tua boca
não lhe darei silêncio
não lhe mostrarei o caminho
não direi sequer
que não me conheces
não te direi sim
não farei nada
do que já fiz
não serei nada
do que já fui
e quando não estiveres olhando
te olharei
porque é destino do caminho
deixar a paisagem passar.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~
trocadilho
a palavra
som que sai
tinta que escreve
luz que preenche
o som
onda que vem
faz carícia no ouvido
fala em tom conhecido
a tinta
que mancha de sentido
costura o diálogo
desenha o sorriso
a luz
que pinta o colorido
organiza o tempo
fabrica o tecido
a onda
que abraça e vai
faz carinho e sai
brinca que vai e volta
a mancha
que teima estar solta
mas que organizada
vira coisa estampada
a tinta que pinta
o tempo nas horas
o abraço que abraça
nas horas que a graça
precisa de um sorriso.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~
e agora uma que não é minha:
um poema clássico* de E.E. Cummings e que fala por todo amor verdadeiro:
"here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart
i carry your heart(i carry it in my heart)"
~~
* fragmento. para a poesia inteira vá aqui.

