Monday, July 30, 2007
[o espaço]*
Espaço pode ser a distância que alguns têm entre os dois dentes da frente. Pode ser a medição que se dá entre a casa e a parede de fora. Pode ser a área de lazer de uma casa: pode ser um jardim. Espaço pode ser uma folha em branco. Pode ser o silêncio entre uma nota musical e outra. Pode ser o caminho percorrido entre o elevador e a porta de entrada. Espaço pode ser uma janela. Espaço pode ser o não-conquistado: o além-Terra. Espaço pode ser os dias que se têm até o fim de uma atividade: espaço pode ser, assim, tempo.
Espaço pode ser o que ainda está vago: como uma caixa não totalmente cheia. Espaço pode ser uma gaveta: se guarda coisas em um espaço: porque a função de um espaço é, na realidade, ter funcionalidade. Mas o vácuo é também um espaço: um espaço aonde nada cabe – nem o ar. Isso porque o espaço também é desprender-se da razão: espaço é poder sonhar: é poder pensar com liberdade. Espaço é permissão.
Espaço_é_o_que_cabe_entre_duas_palavras.
Mas espaço é também divisão: convenção sobre o que pode haver em cada lugar.
Espaço é onde fica uma matéria de jornal. Espaço é recipiente de objetos. Espaço é o copo que segura o líquido; é o corpo que segura o sangue, que guarda a alma. Espaço é a trajetória de uma vida. Espaço é um disco que guarda músicas. Espaço é a distância constante das pernas ao se andar. Espaço é o que está entre a capa e a contracapa: espaço é um livro. Espaço é uma tela de pintura. Espaço é uma fotografia: que é um espaço que não mais existirá de novo. Espaço é a boca que se abre para a comida. Espaço é o interior de um carro: espaço é transporte: movimento percorrido. Espaço é cada degrau de uma escada.
Espaço é o que a luz toca – não existe espaço no escuro.
Espaço é a distância entre dois corpos. Espaço é a cama, que está no quarto, que está na casa, que está na rua, que está no bairro, que está na cidade, que está no estado, que está no país, que está no planeta, que está no universo.
E o espaço é isso: um universo a ser reinventado sempre.
~~
* Escrevi este texto em homenagem à minha dissertação de Mestrado - porque estou grávida de um filho de auto-concepção e sou mãe solteira e desempregada - e-não-tem-sido-fácil.
Monday, July 23, 2007
[porque apertar o botão 'play' é abrir a porta e deixar entrar]
Bom, além de ter de uma hora para outra uma vida bem mais movimentada, de saber de estórias que só ela saberia [porque são coisas que só poderiam acontecer com ela], e de ter um dicionário ambulante ao seu lado que lhe explica sobre as bandas e filmes que o povo fala e que te passam batido como frase em grego... é ter seu nome mencionado perante os mil vistiantes do blog dela, para responder publicamente a uma pergunta...
Mas tudo bem, porque ela faz gracinhas e consegue o que quer mesmo. :*
Além do mais, eu realmente a-d-o-r-o desafios.
Acho que é meu lado de garota-mimada-única-filha-mulher e dos irmãos que diziam do alto de sua masculinidade: eu duvido que tu consiga fazer isso.
E eu ia lá, me estrepava todinha, mas fazia.
Mas a pergunta que dona Banana me pediu para responder é:
Qual a sua relação com música?
Os primeiros acordes que entraram na minha vida [e graças, permanecem] foram os do meu pai. Meu pai é um cara tudo de bom: pintoso, gente boa, bom marido, bom pai, corajoso, responsável, e tem uma voz linda! Quando eu era pequena, eu, como a única menina da casa, tinha uma relação carrapato com ele. E perto dele eu podia tudo. E fui super-hiper estragada - só não fui mais, porque graças a Deus minha mãe tem os pés no chão. Mas meu pai vivia a cantar pela casa - aliás, faz isso até hoje. E eu me lembro de pedir para ele: pai, canta aquela da 'namoradinha de um amigo meu'. Ou a do ET - denominação que eu hoje, aliás, tomo para mim.
O fato é que mesmo hoje, com alguns gostos musicais já definidos, eu não sei letra nenhuma de música, com exceção das-do-roberto-erasmo-nelsongonçalves-jovemguarda-&-cia que meu pai sempre cantou.
Mas apesar de não ser uma rebelde, na forma exata como os rebeldes são conhecidos pelo menos, eu tenho sim a mania de ir na contra-mão do mundo... Tanto que geralmente descubro músicos uns cinco anos depois de todo mundo já ter descoberto.
O fato é que nos meus dezesseis anos, enquanto todos dançavam a la sei-lá-que-banda-estava-fazendo-sucesso-então eu colocava meu som nas alturas e dançava com Maria Bethania e Clara Nunes.
Um ano depois, aos 17, descobri Elis. E me apaixonei por ela. Ela é a única mulher que me faz quebrar o silêncio do meu chuveiro.
Já a cantei de uma ponta a outra da América e até hoje um ex-namorado que virou um grande amigo não pode falar comigo sem falar que ao ouvi-la pensa em mim.
Mas os anos vão passando e apesar de eternamente fiel a Elis, fui descobrindo que gostava de algumas bandas que o resto do mundo amava. Meu irmão mais velho me apresentou aos Foo Fighters, aos Engenheiros, ao Legião Urbana, e a outros tantos que são queridos pela maioria - ao mesmo tempo que meu irmão mais novo me fazia odiar o forró que ele, safadinho, teimava em colocar às alturas no domingo à tarde [hoje, com ele morando longe de mim, acho que eu nem me importaria de ouvir um forró aqui e acolá - muito mais acolá que aqui, no entanto].
Aos 26, me apaixonei por um cara e eu e ele criávamos nossa própria trilha sonora.
Entre meus poemas e suas melodias, vivemos nosso amor através de músicas.
Sem falar nas músicas do meu então sogro - que é um apaixonado por músicas antigas [e conhecedor profundo delas] e que sempre me apresentava a essas e eu sempre ficava encantada.
Eu tenho uma alma velha, sabe.
Mas hoje, bem, Vanessa da Mata me faz rir com sua Quando um homem tem uma mangueira no quintal, Céu me traz um senso de alternativo à alma, Norah Jones e a perfeita mas chatíssima Diana Krall me dão paz, Zeca Baleiro e Paulinho Moska me enfeitam os ouvidos, Gal canta ainda afinado e agudo em meu som, Nelson Gonçalves de vez em quando vem me falar sobre amélias, Marisa Monte é sempre perfeita pra mim...
E como uma boa esquecida, senil sem ter ainda a idade para tal, me pego constantemente redescobrindo amores musicais.
O fato é que música para mim vem sempre agarrada a um contexto.
Acho que é por isso que eu sempre digo que a vida deveria ser mais como um musical.
O que me chega ao meu bem maior: as trilhas sonoras.
De Julie Andrews, a Audrey Hepburn, dos clássicos da Disney à Pixar, dos infantis aos adultos: eu adoro trilhas sonoras.
Seja na voz da Pocahontas, da Belle, da Victoria [ou Victor], da Eliza Doolittle, etc. - amo a todos.
E confesso que não tenho costume de deixar rádio ou cd tocando no background: música para mim ou é desejo ou é surpresa.
Então, quando quero que Elis, ou Savage Garden ou Lulu ou Nana me embalem os ouvidos - eu coloco um disquinho acolá e me delicio.
E quando ligo o rádio e está tocando uma música da Elis ou da Legião eu olho pro céu sorrindo jurando de pé junto que foi um presente para mim.
E desconhecida de tudo como eu sou, quando vou de rádio ligado para os cantos, me pego as vezes tocada, apaixonada por uma música que não conhecia e fico ansiosa, esperando falarem o nome da música para eu anotar na agendinha que sempre carrego comigo.
Existem os amores eternos, claro.
Que não são paixão passageira: Elis [será que já está claro que a amo?], Bethania, Gal, Gil, Rita, Quarteto em Cy, Tom, Vinicius, Chico, Toquinho...
Outras que sempre me fazem bem: Pizarrelli, Rosemary Clooney, Vanessa da Mata, The Corrs, Zeca Pagodinho...
Outras que são música de refletir: os cantos gregorianos e os instrumentais [únicos que eu escuto enquanto estudo]
Então, qual minha relação com música?
Bem, como disse Joseph Campbell [e é incrível como eu cito esse homem]: são felizes aqueles que são capazes de ouvir a música.
E ter músicas que te levam a cantos que ficaram no passado é poder ter sempre um pedaço desses cantos dentro de ti.
Eu só sei que tem uma música religiosa que sempre me faz chorar: numa mistura de alegria e saudade e ternura: porque quando a escuto ou canto é como se a minha avó estivesse ao meu lado de novo.
Então, música para mim é isso: pedacinhos da nossa vida que enfeitaram com acordes musicais.
Pocahontas - Cores do Vento
Do filme Victor Victoria - Julie Andrews cantando Dame from Seville
Dolores Duran - coisas boas que a tecnologia traz de volta pra gente
Gal e Elis
Minha querida Elis
Friday, July 20, 2007
[significados]
porta de entrada
Por todas as metas e planos e sonhos
requisitos das horas que plantam
Por todos os corações que se remendam
verdadeiro recomeçar
Por todas as lágrimas que secam
paz conquistada
Por todos os amores não consumados
eternas idealizações
Por todas as memórias guardadas
caixa de retratos na mente
Por todos os sim’s dados
permissões
Por todos os não’s proferidos
medos
Por todos os arrependimentos
provas do crescer
Por todas as certezas que o tempo provou
verdadeiras verdades
Por todas as horas
que têm suas razões e porquês
Por todas as pessoas que são lar
que são elas o melhor aconchego
Por todas as rezas
dos belos que sabem pedir
Por todas as esperanças
que o homem é o único ser que crê
Pelo sol que nasce
novo dia
Pela noite que envolve
pois o silêncio mora no escuro
Por todas as mãos que se dão
abraço de duas almas
Pelos segredos trocados
confiar
Pelos anos que envolvem vidas
caminhar juntos
Pelos olhos que se vêem
reconhecer
Pelas falas que sabem
entendimento
Por todas as conquistas
sonhos realizados
Por todas as estradas trilhadas
escolhas feitas
Por todos os desejos
sabor de quem sonha
Por todos os amigos
parte de nós
Por todos os que amam
melhor caminho
Por todos os porquês
que o tempo traz
Por cada dia
tempo dado de presente
Pelos anos que se acumulam
tatuagem do tempo na alma
Por cada espaço conhecido
estória escrita
Por todos os que sabem de nós
cumplicidade
Por todas as palavras
que tentarão sempre abraçar quem somos.
Wednesday, July 18, 2007
[meu não passivo ser]
No entanto, uma coisa é certa: o conselho não-participativo e não-envolvente e um tanto quanto “could care less” de “só responda o que lhe perguntarem” não cabe lá tanto na minha personalidade.
Eu tenho a compulsão de falar, de dar minha opinião, de levantar a mão em sala de aula, de me meter no bedelho alheio, de comprar briga que não é minha.
Mania cara, esta.
Principalmente vindo de uma compulsiva-obsessiva em se auto culpar e em se martelar por dias e meses a fio por palavras ditas ou não.
O fato é que sou [deveria dizer estou ] tradutora.
Não é algo que eu desgoste completamente – já que tem me dado um senso de velocidade e concentração [ believe me: people do not respect the silence] que tenho certeza me será útil no futuro – mas também não é algo que eu tenha grande prazer em fazer. E se não fosse o necessário dinheirinho e a proibição empregatícia que uma bolsa acadêmica me impõe, eu já não estaria me prestando a tal papel.
E isso acontece por vários motivos.
Mas o principal deles devo dizer: a profissão de tradutora é infeliz.
Além de ter que achar maneiras de interpretar o que o autor quis dizer quando disse o que disse, são incontáveis as vezes em que você tem o dever de traduzir algo com o que você não concorda, ou pior, exaspera.
É um aprender-a-deixar-pra-lá que verdadeiramente me incomoda.
Até porque esse é um dos defeitos do mundo: todos esquecem tudo rápido demais. A neutralidade é convenientemente super-valorizada.
E a impessoalidade de tudo me dá nos nervos.
Como diz a personagem de Meg Ryan em “Mensagem para Você”: Qual o problema com ser pessoal? Se qualquer coisa, as coisas deveriam ser mais pessoais.
Mas somos todos profissionais neste mundo globalizado ocidental.
Agora eu pergunto: se tradutores não colhem os louros de traduzir as palavras que o autor criou, podem eles receberem o infortúnio de passar adiante o que não é bom?
O que sei é que a romântica em mim odeia admitir, mas existem pelo menos 10 dores-de-cabeça minhas que poderiam ser resolvidas com um bilhete de loteria premiado.
Até lá, é aceitar o papel de adulta no mundo dos horários comerciais e agüentar o que me faz pagar as contas no fim de cada mês.
Tuesday, July 17, 2007
[cumplicidade]
Não sei bem se será incrível a outros olhos que não os meus, mas lhes digo que jamais esquecerei o que senti naquele momento e o olhar que troquei com a mãe que irei relatar aqui.
A equipe do laboratório de pesquisa de que faço parte saiu para os confins do campus da UNIFOR para lanchar em uma das quitandas mais escondidas: é tempo de férias, o campus está vazio, e queríamos a desculpa de caminhar um pouco mais para que o lanche também consumisse um pouco mais de tempo.
Para quem não o sabe, o campus da UNIFOR é lindo, cheio de verde, árvores e ocasionalmente algum animal menos doméstico: como “soim” [mais conhecido fora do nordeste como Sagüi], iguana, etc.
Estávamos todos conversando quando um de nós apontou: olha, um soim! Não demora muito, outro da mesa fala: olha outro!
E outro!
E outro!
Está cheio!
Dentro de poucos segundos tinham em torno de quinze macaquinhos na árvore, todos gritando muito e se comportando de forma apreensiva.
Foi quando olhamos para o chão e percebemos a causa: um macaquinho bebê havia caído no chão.
Todos os macacos da árvore queriam pegar o macaquinho mas o ambiente estava cercado de gente – além dos sete do meu grupo, havia um grupo grande de pedreiros de uma das mega-construções da Unifor – então eles não estavam certos de como se comportar e de como recuperar o bebê.
Me levantei da mesa num pulo assim que o vi no chão.
Segurei-o com cuidado em minha mão e levei-o rápido para o caule da árvore – não queria que meu cheiro ficasse no bebê. Sua mãe o esperava lá.
Ele ainda era muito novinho para se segurar, mas coloquei-o de uma forma em que o seu peso o mantivesse junto à árvore e continuei por perto com as mãos no ar em forma de concha para o caso de ele não conseguir se segurar por muito tempo.
Isso tudo se passou em segundos.
E a mãe dele me olhava atentamente para defendê-lo ante o primeiro sinal de perigo da vida do seu pequeno.
Mas não foi preciso esperar muito, assim que o coloquei na árvore, e tirei a mão de cima dele, ela, me olhando nos olhos, andou em direção ao macaquinho e o agarrou em um abraço apertado.
Com ele grudado em seu corpo, saiu. Mas não sem antes olhar de novo para mim.
O grupo de quinze macacos observou tudo, e à medida que a cena se passava, eles iam diminuindo seus gritos.
E foram-se embora, os quinze com a mãe e seu bebê.
E eu fiquei junto à árvore ainda alguns segundos, embevecida com tamanha cumplicidade e união.
Acho que não há forma melhor de testemunhar amor, do que aqueles que lutam por você quando você não pode lutar por si.
Sunday, July 15, 2007
[receita]
O que também é verdade, claro.
Eu até havia citado Molière, que diz que somos responsáveis não apenas pelo que fazemos, mas também pelo que deixamos de fazer.
E tudo isso é sim absolutamente verdadeiro.
No entanto, eu gosto de acreditar que a cada manhã nós somos um pouquinho mais inteligentes do que o que éramos quando fomos dormir: então, nesta manhã eu decidi apagar o texto que eu havia postado.
Nada há de muito dramático nisso: além das três pessoas [thank you guys] que lêem este blog por amizade a mim, e um ou outro cibernético que veio parar aqui depois de, coitado, ter procurado - pelo visto sem sucesso - algo sobre varandas para redes no Google, não mudo a vida de ninguém ao repensar sobre algo postado.
Para não muito variar trata-se apenas de um incômodo gerado em mim.
Então, como esta é sim minha sala terapêutica, onde após apertar o enigmático botão publicar jogo minhas palavras para um cosmo que não seja mais só meu, vim aqui reformular meus pensamentos e mastigar um pouco mais na matéria que me embala.
Vê, durante alguns bons anos de minha vida eu achei que tinha importância o que, ou quem, ou como... achei que seria válido se tudo fosse exatamente como era para ser. Se cada um de nós achasse fórmulas para ações que nos fizessem a cada dia pessoas que cresciam, pessoas que sabiam o que faziam, e mais que isso, que acreditavam no que faziam.
Para mim, uma ação tem que estar unida a uma convicção.
E talvez seja isso, talvez seja essa a razão de eu levar tudo tão a sério.
Mas ao contrário do que meu outro texto talvez deixasse supor, as ações não devem sempre ser vazias de palavras.
Não, não.
Eu já ouvi as palavras.
Elas são lindas.
Elas encantam.
Elas te fazem enxergar um colorido que você só é capaz de ver quando as escuta.
E não importa o destino que tantas histórias de amor e amizade tenham tomado, a verdade é que essas palavras então ditas sempre me enfeitarão. Sempre serão minhas porque a mim foram dadas.
Mas ao passar boa parte da manhã na cozinha fazendo o almoço de domingo exatamente como eu havia desejado ao acordar, eu percebi como viver é na realidade criar uma receita.
A cada um de nós são dados ingredientes e esses são misturados, separados, adicionados, marinados, assados, cozidos... a nosso bel fazer.
Somos todos cozinheiros.
[E escrever é usar as palavras como ingredientes e sair juntando cada uma como melhor lhe parecer para no fim ter o texto criado como prato final].
O fato é que eu não acredito em ações vazias de palavras – leia-se convicção. E não acredito em palavras vazias de ações. E por isso eu vim aqui colocar um texto no lugar do que eu tinha escrito: porque na verdade todos nós sabemos a receita ideal: todos nós sabemos como é bom escutar o “eu te amo”, assim como nós sabemos o quanto é incrível quando alguém ‘diz’ isso ao fazer algo que para nós é extraordinário.
O fato é que como eu digo teimosamente enchendo o saco do meu amigo Bal, a vida está aí para que acreditemos na sua enorme capacidade de fazer o próximo minuto melhor do que o minuto passado.
Acho que é essa a receita que todo domingo deve trazer.
Thursday, July 12, 2007
[ca-que-como]
Me reporto para a adorável sonhadora Holly Golightly de Breakfast at Tiffany’s: a phoney, but a real phoney. Ou seja, talvez eu seja essa imitação barata de um livro de auto ajuda que tenta ver tudo um tanto mais cor-de-rosa do que na verdade é. Talvez eu ainda acredite em amores que duram vidas inteiras, em filhos crescendo saudáveis e cheio de amor e proteção, em homens que saiam do ordinário lugar cômodo que a modernidade lhes criou e sejam verdadeiramente homens.
Quem sabe eu ainda acredite em um monte de coisas que terminam por só existirem em minhas crenças.
Mas eu, influenciavelmente crível, continuarei crendo em tudo isso.
E se no meio tempo sou uma trapalhona, que na maioria das vezes está no lugar errado na hora errada, que é terrível em dizer não, e que aos recém-completos 28 anos – quase uma balzaquiana – ainda ri de si mesma, então, relevem-me.
Eu na verdade venho aprendendo a dançar com toda a minha ridicularidade.
De fato, às vezes levamos tempo para entender coisas que tantos já entenderam.
Eu rio com a Mônica e o Cebolinha, sou fã do Bob Esponja, gargalho no meio do trânsito se me lembro de algo engraçado, choro no meio da noite por um pesadelo ou por uma lembrança triste, sou capaz de passar horas ocupada em um desenho ou olhando plantas e formigas no quintal, vou visitar gente semi-estranha no hospital se acho que isso os fará se sentirem um pouco mais queridos e necessários, não lido bem com conflitos, adoro cozinhar as receitas que gosto, pijaminha e um filme é um programa mais que tudo-de-bom para mim, e me sinto desconcertadamente atraída por caras altos.
Confesso que há vezes em que eu, desligada e ET, me sinto um verdadeiro Joey do Friends: não entendo nada que as pessoas estão falando e fico balançando a cabeça com cara de séria e compenetrada e morrendo de fazer hora de mim mesma por dentro.
Eu acho que no fundo, sou realmente uma phony. Fico andando por aí com essa cara de gente séria e entendida quando na verdade as coisas não são bem assim.
É muito legal escutar pessoas que parecem saber do que estão falando. É show mesmo. As pessoas estão cada vez melhores em suas teorias críticas por sobre o mundo, fatos e outras pessoas.
E confesso que às vezes até me convencem realmente.
Mas sempre me vem à mente uma historinha que se passa entre o Franjinha [o inventor da turma da Mônica] e o Zé Luiz [o intelectual da turma]: o Zé Luiz, sempre muito inteligente e sabedor de tudo, tinha chegado a um nível tão elaborado de diálogo que não se fazia entender pelo resto da turma. Franjinha então lhe lança um desafio: lhe mostra uma flor e lhe pede que diga o que acha dessa.
Zé Luiz, tomado de uma inspiração poético-científica começa sua descrição elaborada: um vegetal da classe tal, que tem por características tais, e reproduz-se de tal forma e sua beleza vem sendo retratada por vários artistas dos séculos tais, tais e tais... Franjinha balança a cabeça e diz com um tom de desaprovação: Diga apenas que a flor é bonita.
Zé Luiz se vê podado de sua eloqüência: “Isso é desvalorizar sua descrição por demasiado” – frustra-se ele.
Moral da história: às vezes as coisas deveriam ser bem mais simples do que o que as pessoas as fazem.
E eu, bem, tentarei seguir acreditando em todas as coisas que fazem meu coração rir, e tentarei seguir o sábio conselho de dançar como se não estivessem me olhando.
Das duas uma: ou sou uma acadêmica medíocre, ou tomo para mim o desafio de acreditar no que a maioria não acredita.
Como eu sou eu, voto na segunda opção: e digo até que já estou acostumada com esse papel.
Elaine, um brinde, por favor! :]
Monday, June 04, 2007
[o que é importante]
É que se diz que a janela da alma são os olhos. Acho que é porque as pessoas que falam olhando nos olhos falam com mais certeza do que falam – o que é bem certo realmente. Afinal, olhar nos olhos mostra franqueza, mostra uma responsabilidade pelo dito que já não é lá tão comum hoje
Mas daí a dar o título de janela da alma aos olhos... não sei não... talvez seja minha mania de enxergar mais do que existe, mas se eu fosse dar tal título a alguma parte do ser humano, daria ao sorriso.
Sim: Sorriso, o proclamo agora e para sempre, janela da alma!
Ora, pois se conhecemos uma pessoa pela razão que ela sorri!
É o sorriso que comunica, é ele que dialoga, é ele que expõe o que é ético ou não. É o sorriso que nos separa de todos os outros seres que não sorriem: é isso: todos os seres viventes da Terra são divididos entre os que sorriem e os que não sorriem.
Diga-me lá se isso não é algo poderoso.
Diga-me lá se ele não merece ser essa espiadinha na alma que está lá dentro... Se ele não merece ser porta de entrada para o que de verdadeiro existe em nós.
Na realidade, o sorriso é tudo: é o agradecer pela vida, é a esperança de dias melhores, é a pureza de uma criança, é o sonhar e o sonho realizado, é o prazer, é a paz, é a brincadeira, é a alegria, é a música, é o desejo, é o ontem, o hoje e o amanhã...
O sorriso é o que nos é importante.
E nossas razões de sorrir falam por nós.
Acho que melhor que o nosso próprio sorriso, só o sorriso daqueles que nos fazem sorrir por existirem em nossas vidas.
E saber a razão do sorrir é conhecer: é essa a bandeira a ser carregada: na amizade e no amor, no companheirismo e na cumplicidade: é o sorriso quem fala por nós.
Janela da alma que gargalha por se mostrar nesse nome que se nomeia a si mesmo: sor-RI-so. Só riso: vocês eu não sei: mas eu quero que seja ele que fale por quem eu sou.
E com certeza é ele que proclama o que é importante para mim.
~~~
E aqui vai um sorriso que achei hoje:
Julie Andrews e Gene Kelly juntos!
Sunday, May 27, 2007
[confissão]
~~~
Freddy:
Speak and the world is full of singing,
And I'm winging Higher than the birds.
Touch and my heart begins to crumble,
The heaven's tumble, Darling, and I'm...
Eliza:
Words! Words! Words! I'm so sick of words!
I get words all day through;
First from him, now from you! Is that all you blighters can do?
Don't talk of stars Burning above; If you're in love,
Show me! Tell me no dreams
Filled with desire. If you're on fire,
Show me! Here we are together in the middle of the night!
Don't talk of spring! Just hold me tight!
Anyone who's ever been in love'll tell you that
This is no time for a chat! Haven't your lips
Longed for my touch? Don't say how much,
Show me! Show me! Don't talk of love lasting through time.
Make me no undying vow. Show me now!
Sing me no song! Read me no rhyme!
Don't waste my time, Show me!
Don't talk of June, Don't talk of fall!
Don't talk at all! Show me!
Never do I ever want to hear another word.
There isn't one I haven't heard.
Here we are together in what ought to be a dream;
Say one more word and I'll scream!
Haven't your arms Hungered for mine?
Please don't "expl'ine," Show me! Show me!
Don't wait until wrinkles and lines
Pop out all over my brow,
Show me now!
~~~
* do filme 'My Fair Lady'
Wednesday, May 09, 2007
[dvds]
É que talvez as pessoas sejam um pouco como Dvds.
Existem aqueles dvds que só basta que os vejamos uma vez, e sabemos que vamos querer vê-los de novo e de novo para o resto de nossas vidas.
Existem aqueles dvds que mal começamos a ver e já sabemos que o melhor a fazer é desligar logo o aparelho e devolver aquele dvd o mais rápido possível.
Existem dvds que nos encantam durante um período e nos são muito especiais durante esse tempo, mas aí percebemos que eles não fazem mais que com nos sintamos bem, que eles nos fazem chorar.
Existem dvds que logo depois de termos encontrado, não queremos nunca mais sequer ouvir falar deles.
Existem dvds que nos marcam profundamente, mas depois desaparecem e não conseguimos mais encontra-los, por mais que os procuremos.
Existem dvds que vemos algumas vezes e depois não temos mais coragem de ver – por vários e diferentes motivos.
Existem dvds pelos quais nos apaixonamos e então achamos que nenhum outro será tão belo [o tempo nos mostrará, no entanto, que serão vários os belos e que eles nos marcarão de formas diferentes]
Existem dvds que são simplesmente feios, que nos fazem se sentir mal, que nos trazem para baixo sempre que cruzam nosso caminho.
Existem dvds que são como sonhos: absolutamente irreais, mas absolutamente lindos.
Existem dvds que não fazem bem ou mal, e às vezes sequer conseguimos lembrar deles, ou às vezes eles são exatamente o que o momento pede.
Existem aqueles dvds que sempre nos fazem se sentir bem, que sempre levantam nosso ânimo, que sempre nos trazem um sorriso à boca e paz ao espírito.
Existem aqueles dvds que nos causam medo, que fazem com que tenhamos pesadelos, que retratam o que existe de feio no mundo.
Existem aqueles dvds que nos fazem acordar, que nos falam as verdades que precisamos ouvir, que nos arrebatam do mundo das ilusões e fincam nossos pés no chão.
Existem dvds que são como crianças: alegres e inocentes, puros e leves, graciosos e verdadeiros.
Existem dvds que nos mostram fragilidade, que nos fazem ver as limitações do homem, que nos fazem perceber nosso tempo finito, que nos fazem perceber o valor que deve ser dado a cada dia.
Existem dvds que acreditam no fim feliz.
Existem dvds que são repletos de tristezas.
Existem dvds que são cheios de perdão; outros que são cheio de inveja e maldade.
Existem dvds que são exemplos de vida; outros que são exemplos do que não seguir.
Existem dvds que existem simplesmente por existir e outros cuja existência não nos imaginamos sem.
Existem dvds que sobrevivem ao tempo: sempre mostrando continuamente sua importância e beleza. Existem dvds que serão sempre uma linda lembrança. E outros que ficaram esquecidos no tempo a que pertenceram.
Existem dvds que nos chegam como um presente e fazem nossa vida melhor e mais bonita.
Existem dvds que nos fazem olhar alegres para a nossa prateleira: porque só tê-los ali já nos faz nos sentirmos mais felizes e certos de ter sempre um sorriso à mão.
~ Para os ‘dvds’ da minha vida.
Wednesday, May 02, 2007
[definições]
São esses anseios que ecoam de dentro de nós. Vozes que nos gritam no ouvido, que nos sussurram sobre medos, sobre desejos, sobre incertezas. Passado e presente misturados numa corrente contínua e fluida. Olhares que só nós vemos, vozes que só nós escutamos, desfechos que escolhemos sem escolher realmente.
E falamos falando o que não conseguimos falar. E tudo parece tão imenso e tão enrolado e tão cansativo e tão, tão maior que nós.
E as horas nos chegam, sem discrição alguma, esbarroam sua entrada em nosso tempo, rodam tontas no relógio, assoviam salientes do alto das manhãs, riem nocivamente no fechar das noites de derrota. No palco, nós, vencidos pelas superações que não conseguimos alcançar.
Esses pobres homens, também. O que o tempo quer de nós? Quererá nos moldar em seres superiores? Desejará cochichar-nos sabedorias? Anseia talvez nos contar segredos de felicidade e paz?
Ora, ora.
Será esse o plano do tempo?
Desejará ser a água da sede*, o preencher do vazio, o sentido da confusão?
Terá talvez a pretensão de se fazer professor e mestre? De se vestir de luz? Quererá o tempo nos mostrar os por quês? Pensa talvez o tempo que é capaz de nos transformar?
Mas, ora, ora.
Quem o tempo pensa que é?
Esperança, por acaso?
* essa frase não é minha: foi-me dita hoje pela manhã por Flaubênia, colega do mestrado, em um contexto diferente.
Sunday, April 22, 2007
[um texto bonito]
Na verdade a beleza é um sorriso.
Você vê o que lhe é belo e pronto: você simplesmente sorri.
Mas o que é um texto bonito?
As imagens que vamos formando, imaginando, à medida que lemos o texto?
O sentimento que o texto desperta em nós?
Acho que todas as anteriores. A depender do momento, do texto ou do espírito.
O que sei é que precisamos de um texto bonito. Precisamos alimentar o que há de belo. Precisamos estimular o que sentimos que é bom, o que nos faz sonhar, o que nos faz ver tudo um pouco mais colorido.
Um texto bonito nos traz leveza, nos faz terminar a leitura com um sussurrante “é verdade...!”.
Quase como uma confissão a si mesmo. Quase como a mensagem de anjo que nos foi enviada para que ainda acreditássemos em algo.
E não somos nós que encontramos um texto bonito.
É ele que nos acha.
Chega às nossas mãos ou vem à nossa mente no momento da precisão.
E a verdade é que necessitamos do texto bonito.
Que traga à tona boas lembranças, que abrace nossos sonhos, que endosse nossas esperanças.
No entanto, creio eu, não é o autor quem faz o texto bonito. Ou se o faz, faz para si – porque é, também, leitor.
E é o leitor quem faz o texto bonito. É o leitor quem vê o que de belo há ali. É o leitor quem confessa para si: “é exatamente isso que eu sinto. Que eu precisava ouvir. Perfeito isso!”.
Perfeito sim. Porque na verdade só nós somos capazes de reconhecer as peças que nos faltam.
E um texto bonito é isso. Um pedacinho seu que estava perdido por aí e que você, de repente, achou.
- Para o meu amigo Bal.
Tuesday, April 03, 2007
[um post triste]
É que no mundo tudo precisa ser anunciado. Tudo há que ter uma razão de ser, uma explicação, um por quê. Tudo há que ser aparente.
Lembro-me da frase de Exupéry: “o essencial é invisível aos olhos”.
Mas confesso que acho a frase extremista demais: há tanto que é essencial e que é, no entanto, tão visível.
Mas o que dizer da dor? Parece-me que temos que mostrar o gesso do braço; a ferida aberta na perna; os pontos que costuram o pé.
[para que serve, senão, o atestado do médico?]
A dor, por si só, essa não causa sensibilidade.
É a velha história da pedra no sapato do outro...
E é também como a dor de um coração partido. Parece-me que a dor de uma perda, sem ser por morte sofrida ou súbita, não causa lá tanta compaixão...
Quem há de mensurar a dor do outro?
A pedra que lateja no sapato que não sai do pé?
Este é um post triste. Porque a tristeza é parte de tudo. Emenda as peças do quebra-cabeça; agita os pensamentos; torna consciente o que incomoda.
A tristeza faz a dor aparente.
A tristeza comunica.
Confesso que posso dizer que tenho alguma – ainda que pouca – autoridade
[e aqui falo de um dedo, imaginem]
A dor que sinto hoje, perto da dor que já senti um dia, essa dor é quase nada. É um restinho de terra, uma sombra do que já existiu.
Para ser ridícula: é um punhado de grãos na imensidão da areia da praia.
E há que vir o mar já já e levar esses grãos embora.
Porque na verdade a dor faz com que percebamos o que sequer sabíamos que existia.
A dor anuncia a falta da não-dor.
É uma saudade.
No fundo é só isso.
Saudade do tempo em que não doía.
Friday, March 30, 2007
[são os teus olhos que vêem o mundo]
O que são nossas certezas, não é? O que você acreditou ontem? Em que achou estar certo? Quais foram os pensamentos que eram teus e que você viu se esvaírem como se eles nunca tivessem envolvido nenhuma intensidade...
Somos todos formados da mesma matéria falha. Uma matéria que só pode ter a certeza de que se modificará ainda milhares de vezes até que por fim se transforme pela última vez.
Recentemente, veio a mim a seguinte frase: “envelhecemos como vivemos”.
Uma vez me foi dito que não podemos fugir de quem somos, que transbordamos por nossos poros. E essa é sim uma grande verdade. O único complemento que faltou a essa afirmação é que nossos poros estão sempre a mudar.
O tempo os transforma, os fazem mais visíveis, mais coerentes com o que aceitar ou não da vida, mais certos do suor que devem ou não expelir.
Mas sim, envelhecemos como vivemos. Porque o viver é na verdade uma atitude perante a vida. Somos nossas crenças por sobre a vida, por sobre a experiência do viver.
No entanto é preciso ressaltar que essa não é uma verdade estática. Ou, para melhor expressar-me, não é uma verdade petrificada; mas sim uma verdade em movimento.
Porque caros, o que falta nessa grande verdade que clama que envelhecemos como vivemos é que somos vários ao viver: e temos na realidade tantas vezes quantas forem possíveis, até que se chegue à nós nossa finitude, para que percebamos o encantamento de viver, para que possamos crer nessa seqüência de acontecimentos e experiências que perfazem a própria vida.
Esparramo esses pensamentos por um motivo apenas: porque o emprego que eu quero da vida é o de caçadora de belezas.
Dessas belezas que faz você aos 89 anos ver a vida com toda a plenitude da juventude. Dessas belezas verdadeiramente belas, que sobrevivem a todas as tristezas e percalços, decepções e auto-vitimização.
Quero colocar meu par de óculos e enxergar por essas lentes magníficas, que ‘envelhecem como viveram’ e que viveram a perceber a beleza de apreender pequenas coisas, de saber quando dar a mão, de ver o lado mais bonito das pessoas e dos espaços ao seu redor.
Na realidade, são nossos olhos que vêem o mundo.
E cada par de olhos tem o mundo que enxerga.
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Desejo
-Victor Hugo-
"Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve
E
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga "Isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar".
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Me é impressionante como algo tão lindo como essa poesia, ainda não seja capaz de englobar tudo o que é possível à vida.
São muitos os desejos. Uma vida apenas.
E a forma como essas duas variantes se entrelaçam na realidade só depende de nós.
Afinal, são nossos olhos que vêem o mundo.
Monday, March 19, 2007
[dia de varanda]
[discrição]
olhei-o
sem sabê-lo até eu
olhei-o
a indagar o passado
a relatar o presente
a apostar o futuro
olhei-o
acompanhando seus passos
o arrastar de sua existência
a coerência de seu julgamento
olhei-o
nem alegre
nem triste
olhei-o apenas
certa de que ele sempre existirá.
19/03/2007
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[vivas]
porque o romanesco contagia
entra nos sonhos sem permissão
briga com o dia a dia
frustra-se com o real
vivas pelo que se viva
que os sorrisos deixam-se sempre a depender de algo.
19/03/2007
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[volta]
conta-se
um, dois, três...
arrasta-se
impõe-se
pinta o pelos
risca a pele
fere
cura
traz lembranças do que não mais é
[mas que nunca deixará de ser]
é guardador de tanto
é depósito da existência
até que essa deixe de existir
e ainda assim guarda o que foi permitido registrar
pois que se registre.
pois certas coisas merecem ser eternas.
19/03/2007
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[não fui eu]
não fui eu quem disse
o que deveria ser dito
não fui eu quem consertou
o que deveria ser consertado
não fui eu quem escreveu
o que deveria ser escrito
não fui eu quem percebeu
o que deveria ter sido percebido
não fui quem acreditou
no que deveria ter sido crido
mas fui eu quem sonhou
exigente e geniosa
ingênua e irresponsável
ser resgatada do fogo que queimava.
19/03/2007
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[janela]
que às vezes
basta um pequeno espaço
um buraco quadrado
a atravessar a parede
e mostrar o mundo
que existe além.
19/03/2007
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verdade do dia:

Friday, January 26, 2007
Thursday, January 25, 2007
[re-visita]
Ao título deve-se uma explicação [aliás, pensando bem, acho que essa é uma verdade estável]: parece-me que já vivi e senti tudo o que hoje vivo e sinto. Os sentimentos vêm, se misturam numa gororoba feia, marrom, gosmenta e tudo o que meu cérebro faz é anunciar solene e frio como uma lâmina de metal: você já trilhou esse caminho, já praticou os mesmo erros, e até as mesmas conclusões serão ditas a seu respeito.
E isso dói.
Dentro de mim e em um idioma não perceptível aos outros, mas dói.
E há tanto o que eu quero falar, mas acho que só nesse ponto sou jornalista: sou, na verdade, uma auto-censurada.
No entanto, eu sou grande entusiasta da vida: se tudo isso já me veio antes, eu também sei que sobrevivo.
Não saio inteira [nunca saio, até porque não saio a mesma], mas sobrevivo.
Uma vez [para falar a verdade, a ouvi várias vezes, em vários momentos, dita por várias pessoas] ouvi a frase: ninguém é insubstituível.
Discordo plena, expressa e fortemente dessa frase.
Aliás, acredito e sinto exatamente o oposto: todos [e cada um] são insubstituíveis.
E sofro terrivelmente com cada perda que a vida me traz.
E aqui não falo de uma perda específica.
Ou não falo também de uma verdade universal que caiba a todos.
Generalizo uma temática.
Lembro-me de uma anedota para lá de verdadeira que ouvi ou li em algum lugar:
Meu filho, se lhe chamarem de cavalo uma vez, dê-lhe um soco na cara.
Se lhe chamarem de cavalo uma segunda vez, xingue-o de algum outro nome.
Se lhe chamarem de cavalo pela terceira vez, comece a relinchar.
Simplesmente há vezes em que o mal, o defeito está em nós mesmos.
E são precisos fatos repetidos e constantes para que vejamos isso.
Eu decidi que não quero só entender.
Aliás, desisto de entender.
E passei muito tempo da minha vida com um desejo apenas [porque os outros desejos eu tinha -- e tenho -- a certeza dentro de mim que com minha luta eu mesma conseguiria]:
ser entendida.
Mas, como veio na frase que uma amiga querida mandou:
"Nasci careca, pelado e sem dente ... o que vier é lucro"
E eu até que consigo tirar lucro da vida.
Saturday, January 06, 2007
[sobre a arte de recomeçar]
Este não se pretende ser um texto de auto-ajuda. Mas pode ser que acabe por se tornar um quando eu o terminar de escrever. Porque, queridos, no fim, somos nós quem nos ajudamos mesmo. Ajuda alguma que a vida nos dá, pode ser recebida sem que seja por nós permitida. Assim, toda ajuda termina por ser uma auto-ajuda.
E nós, nós somos artistas mestres. Somos criadores de obras-primas atemporais. Somos fazedores do tempo.
A cada novo passo, a cada nova escolha, a cada perda [pois são elas as maiores responsáveis pelas transformações que acontecem em nós], a cada aprendizado, a cada sonho realizado, nós, artistas, inventamos a arte de nos criar novamente.
Não falo aqui da metamorfose do fantástico Raul. Não acho que somos seres metamórficos. Embora sejamos ambulantes: peregrinos da estrada que aceitamos trilhar.
A metamorfose é instintiva, não é sentida ou pensada. A metamorfose se opera em nós, e não nós nela. É seguir pulando com cada nova multidão que aparecer.
Já o recomeço, o recomeço é uma atitude. É sentido, muitas vezes nos custa, é sofrido, pensado, refletido, requer garra, escolha, perseverança.
Somos nós que operamos, que entramos em ação, na hora em que decidimos recomeçar.
E, sim, somos vários ao longo da vida. Somos o vento a carregar as várias e diferentes partículas dos locais por onde passa, a levar em si um pouco de tudo o que tocou.
Somos o vento que ora é dança, ora é briga, ora é desastre, ora é brisa, ora é frio, ora é leveza, ora é horror. Somos o vento que muda de acordo com o tempo que vive.
E, quase que sem escolha, se nossa escolha é interagir com a vida, seguimos recomeçando.
E não recomeçamos porque o presente é ruim. Recomeçamos porque sentimos a necessidade de fazê-lo.
Podemos passar anos a fio na mesma situação que nos comprime, magoa, castra, entristece, cala, sufoca e não nos permitirmos recomeçar. Porque somos seres bonitos: às vezes achamos que só merecemos aquilo, que só aquela realidade nos é permitida. Ou porque estamos assustados: até que ponto é bom o desconhecido?
Recomeçar significa abandonar quem se era e vestir-se de um novo eu.
Significa lutar por novos sonhos [é impossível ao que não tem sonhos recomeçar].
Mas aos que conseguem ou se permitem interagir com a vida, chega um dia em que falamos para dentro: basta.
E ao sentir isso, já recomeçamos.
E ao que se permite recomeçar, vai um aviso: sempre serão necessários novos recomeços.
Não recomeçamos porque perdemos, recomeçamos porque crescemos. Porque a linha de chegada está agora em outro lugar.
Recomeçamos porque somos artistas: e artistas têm sempre que criar novas obras.
Recomeçamos porque, para estar ao lado de quem amamos, precisamos sempre nos adaptar uns aos outros: afinal, todos recomeçam de novo e de novo e ninguém recomeça sem estar de mãos dadas com os sonhos que lhe enfeitam o travesseiro.
Recomeçar é colocar a caneta na mão e iniciar a escrever uma nova história.
Recomeçar é perceber que a única coisa que a última história ainda precisa, é do ponto final.
imagem retirada daqui
e a do post anterior, cujo crédito eu esqueci de colocar, é de autoria do meu querido mestre, o cartunista argentino Quino, criador da Mafalda
Thursday, January 04, 2007
Saturday, December 30, 2006
Escrever para mim é viajar por dentro. É entrar na montanha russa dos vasos que percorrem meu corpo. É tirar a carapaça grossa, é fazer-se frágil e tímida e ser a mais pequena das criaturas.
Escrever para mim, é ser quem não vêem que eu sou, é virar personagem de mim mesma, é tentar amontoar, amassar, encaixar tudo o que não pode ser amontoado, amassado, encaixado. E essas palavras sempre falham em dizer tudo o que precisa ser dito.
São um recorte da realidade apenas. Uma edição. Dentre tantas possíveis.
E eu, que estou sempre fazendo turismo em mim, aprendo e desaprendo com essas palavras.
E têm vezes que elas querem me agarrar pelo braço e sair de joelhos pedindo perdão a todos os que queria ter perto; têm vezes que elas se vestem de raiva, e querem usar todos os palavrões que só aos gritos poderiam expelir um pouco da mágoa e frustração e dor; têm vezes que elas, fracas, são tomadas por uma auto-piedade, por um não-pertencer, por se achar eterna estranha nesta terra azul.
Têm dias que elas acreditam no amor. Acreditam que é possível que duas pessoas se encontrem e passem o resto de suas vidas se re-conquistando, vencendo os defeitos e os mal-entendidos e as fraquezas de cada um. Têm dias que elas têm a certeza de que o amor não é para aqueles que gostam de escrever sobre ele. Que quem o observa, não o vive. E quem o vive não precisa se deter a observá-lo.
Essas palavras que criam teorias que ninguém escuta. Que física alguma se interessaria. Essas palavras que se sentem a mais só das criaturas. Que vão dormir agarradas ao travesseiro e olham para as estrelas sonhando que talvez um dia possa existir alguma vida que lhes dêem um senso de completude. Essas palavras tolas. Que acreditam tão facilmente em tudo. Onde qualquer sorriso é permissão de entrada.
Essas palavras que já sabem quais serão as últimas palavras que serão escolhidas: sempre acreditei na vida.
Porque as palavras e a vida estão sempre em um ringue, com luvas vermelhas nas mãos e nem sempre têm protetores nos lábios e na cabeça, e nem sempre os golpes são justos ou corretos ou éticos. Mas quando chega a hora de contar até dez, entre a vida e nossas palavras, são nossas palavras que devem ganhar e se levantar primeiro. E não tenham dúvida: a vida esperará que nos levantemos e só não será por nós se nós mesmos não o formos.
E disso as palavras sabem, e isso as palavras cantam, e por isso elas têm em si o mais belo nome: amanhã.
E o amanhã pode ser o próximo minuto, pode ser o próximo ano, pode ser o futuro, pode ser o que acabou de chegar: o amanhã é a certeza de que o hoje vale e de que muitos sorrisos ainda enfeitarão nossos lábios. O amanhã é a essência do ser homem: é acreditar que as pequenas coisas fazem essa jornada valer a pena. O amanhã é a caixinha aonde guardamos os sonhos e planos que só nele cabem.
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que o amanhã que agora chamamos de 2007 venha enfeitado de muitos sorrisos e surpresas boas.
